title: "O Coração e o Juramento" date: "2026-09-20" arc: "VALCINZENTO E O CORAÇÃO-RAIZ" description: "Uma promessa de Poppe a Noah abre o caminho para o retorno de Astel da Biblioteca Infinita. Enquanto o grupo investiga a troca de corpos e novas pistas sobre os perseguidores de Allya, a tentativa de salvar Calengur transforma o Coração-Raiz — e obriga Noah a enfrentar aquilo que acredita ser." cover: "" ---
Contexto
Depois dos acontecimentos em Valcinzento, o grupo enfrentava problemas demais para uma única decisão. Calengur, o drow encontrado no interior do Ent corrompido, continuava preso a uma existência que parecia impedir sua morte. Screaky e Dandelion haviam acordado nos corpos um do outro, sem saber como desfazer a troca. Astel permanecia perdido na Biblioteca Infinita.
A única proposta concreta para trazê-lo de volta vinha de Poppe. O jovem que acompanhara Dandelion dizia ser capaz de guiar Astel até uma saída e se oferecia para ocupar seu lugar, convencido de que conseguiria escapar depois. Mas aceitar significava confiar em alguém cuja identidade, história e relação com o Poppe conhecido pelo grupo estavam longe de ser esclarecidas.
O juramento pela Biblioteca Infinita
Uma escolha sem unanimidade
O impasse começou com o grupo dividido. Dandelion, que havia viajado com Poppe e conversado com Thalindra sobre as circunstâncias daquela história, apoiava a troca: para ele, era uma oportunidade concreta de recuperar Astel. Allya também considerava a proposta aceitável, embora não ignorasse seus riscos. Screaky, por outro lado, desconfiava profundamente de Poppe. O próprio Astel, ainda distante e informado pela pedra de comunicação, não desejava que outra pessoa fosse condenada à Biblioteca para salvá-lo.
Noah ainda não havia decidido. Confiava em Astel e Screaky, que se opunham ao plano, mas sentia o peso do tempo perdido e o temor de que seu amigo jamais conseguisse sair sozinho. Mais do que votar a favor ou contra, queria saber o que aconteceria com Poppe depois da troca.
Enquanto os companheiros tentavam chegar a um acordo, Dandelion — preso no corpo de Screaky — já demonstrava sua impaciência. Deu cambalhotas, experimentou a mobilidade da kenku, ensaiou vozes e chegou a sair em busca de outra taverna para fugir do ambiente carregado. Allya precisou chamá-lo de volta, lembrando-lhe que, gostasse ou não, continuava fazendo parte do grupo e daquela decisão.
Uma promessa feita com o mindinho
Noah finalmente abordou Poppe. Não queria aceitar uma solução que libertasse Astel apenas para abandonar outra pessoa à própria sorte. Perguntou como ele poderia ter certeza de que o jovem saberia sair e por que não seria melhor simplesmente ensinar o caminho a Astel.
Poppe respondeu que conhecia a Biblioteca de uma maneira que Astel não conhecia. Podia descrever os lugares que deveriam ser evitados e conduzi-lo até uma página-guia, mas acreditava que o amigo deles não possuía as mesmas condições para encontrar sozinho o caminho completo de saída. Sua própria chance de escapar, garantiu, era maior do que a de Astel.
Noah não recebeu uma garantia impossível: recebeu uma promessa. Poppe se abaixou diante dele e estendeu o mindinho, jurando que sairia da Biblioteca. Noah aceitou, mas estabeleceu sua condição: se Poppe não conseguisse voltar, ele próprio iria buscá-lo. O juramento tornou-se recíproco, e os dois selaram o acordo.
O garoto também providenciou uma pedra de comunicação para que Poppe pudesse chamá-lo caso precisasse. O que começou como uma votação terminou como um compromisso pessoal que Noah não pretendia esquecer.
A página que começou a escrever sozinha
Com a decisão tomada, Allya procurou Astel pela pedra de comunicação. Ele não gostou de saber que o grupo aceitara a proposta. A Biblioteca, porém, continuava ao seu redor, e o tempo para discutir já havia sido gasto.
Astel tentou descrever o ambiente: corredores, estantes, livros e os detalhes que até então lhe pareciam todos iguais. Ao prestar mais atenção aos temas, aos ornamentos e à organização do lugar, conseguiu transmitir informações suficientes para que Poppe assumisse a comunicação. De posse da pedra, o jovem começou a guiá-lo por caminhos específicos da Biblioteca, dando instruções sobre estantes, escadas e direções. Disse-lhe para continuar até a página-guia e avisar quando a encontrasse.
A orientação tomou tempo. Quando Astel enfim chegou ao local indicado, encontrou a página. Sem Poppe ao lado do grupo para lhe dar novas instruções — o jovem havia saído para cuidar de sua parte do plano —, os companheiros precisaram interpretar o que estava acontecendo à distância.
A página começou a se modificar. Inscrições incomuns surgiram em suas bordas, formando o que Astel reconheceu como um ritual de teletransporte. No centro, apareceu a silhueta de uma mão. Ao ouvir a descrição, Noah concluiu que Astel provavelmente precisava colocar sua própria mão sobre aquela marca.
Astel obedeceu, apesar da desconfiança. A página pareceu agarrá-lo e puxá-lo para dentro. Uma luz intensa tomou sua visão. À frente surgiu uma porta isolada, e, ao atravessá-la, ele foi lançado para fora daquele lugar interminável.
Um beco em Valcinzento
Em vez de mais estantes, Astel encontrou um beco estreito de uma pequena cidade. A página-guia havia vindo com ele, mas suas bordas estavam queimadas e as inscrições começavam a desaparecer, como se a magia já estivesse se consumindo.
Ele imediatamente chamou o grupo pela pedra e tentou descobrir onde estava. Depois de perguntar a um morador e reconhecer o nome do lugar, confirmou: havia retornado a Valcinzento. Não estava em um plano distante ou em outra cidade. Estava perto dos amigos.
O estranho contraste não passou despercebido: uma saída que lhe parecera impossível durante tanto tempo havia terminado em um beco relativamente próximo. A parte do acordo que cabia a Poppe, no entanto, permanecia fora dos olhos do grupo. Astel estava livre; onde exatamente Poppe se encontrava e como cumpriria sua própria promessa ainda não havia sido confirmado.
O reencontro e as pendências que esperavam
A volta de Astel
Ao chegar à taverna, Astel encontrou uma recepção mais abatida do que imaginava. Screaky continuava no corpo de Dandelion, enquanto Dandelion, no corpo da kenku, aproveitou a oportunidade para recebê-lo com entusiasmo. O abraço foi tão afetuoso quanto estranho: Astel estava feliz por reencontrar seu companheiro, mas ainda precisava se acostumar a ver o amigo falando e agindo através do corpo de Screaky.
Noah, que tentava conter a própria emoção, finalmente correu para abraçá-lo. O reencontro trouxe alívio, mas também uma cobrança. O menino deu um soco no peito de Astel e pediu que ele não voltasse a agir de maneira tão precipitada. Temera perdê-lo; não queria passar novamente pela espera e pela possibilidade de nunca mais vê-lo.
Astel agradeceu ao garoto e reconheceu a confiança que tinha em seus companheiros. A promessa de Poppe, contudo, já não podia ser desfeita apenas porque a aventura da Biblioteca havia terminado para ele.
Um Poppe diferente — ou apenas uma história diferente?
Astel perguntou o que os demais sabiam sobre o jovem que se oferecera para salvá-lo. Dandelion contou sobre a viagem que os dois haviam feito, a busca por um gato, os encontros com goblins, as tavernas e as circunstâncias que o aproximaram de Poppe. Havia encontrado alguém divertido, sociável e disposto a ajudar; alguém bem diferente da figura ameaçadora de que o grupo guardava lembranças.
Nem todos se convenceram. Screaky levantou uma possibilidade inquietante: talvez estivessem diante de algum eco do passado ou de uma realidade diferente; talvez aquele jovem ainda pudesse se tornar a pessoa que tanto temiam. Não havia provas suficientes para definir qual interpretação estava correta.
A conversa terminou sem resolver a identidade de Poppe. Para Astel, restava a gratidão pela liberdade recuperada, acompanhada da cautela diante da promessa que tornara isso possível.
Dois amigos, dois corpos, nenhuma solução
A troca entre Screaky e Dandelion continuava sendo um problema imediato. Astel tentou reconstruir os eventos que poderiam tê-la provocado. Screaky explicou o encontro com o drow no Ent corrompido e o ataque das plantas à cidade; Dandelion voltou mentalmente aos dias em que acompanhara Poppe, passando pelo gato, pelos goblins e por tudo que bebera ou experimentara. Nenhuma ligação foi comprovada.
Os dois descobriram, porém, que as habilidades dos corpos permaneciam acessíveis. Dandelion conseguia aproveitar os movimentos, os golpes e as técnicas de Screaky, embora sentisse falta da música, dos fantasmas que o acompanhavam e até dos prazeres cotidianos de sua própria vida. Screaky conseguia executar magias de ilusão e tocar o alaúde de Dandelion, mesmo contrariada por ter de se adaptar àquele corpo e ao repertório do bardo.
O resultado rendeu cenas difíceis de esquecer. Dandelion passou a se comportar como uma versão inquieta e ladrã de Screaky, chegando a furtar pequenas quinquilharias na taverna — pouco mais do que objetos sem valor — só pela emoção de consegui-lo. Screaky, no corpo do pato, acabou fazendo uma apresentação musical pouco entusiasmada para satisfazer o companheiro e tentar devolver alguma normalidade à noite. A doninha de Screaky e os pequenos fantasmas de Dandelion também reagiram à confusão entre aparência e identidade, acrescentando mais uma camada de caos a uma situação que já parecia absurda.
Astel prometeu que tentariam encontrar uma cura, mas, por enquanto, Screaky e Dandelion continuavam trocados.
O cheiro de Leonard e o passado de Allya
Uma pista no lugar menos esperado
Enquanto Astel, Noah e Screaky retomavam o assunto do Ent e do Coração-Raiz, Allya acompanhou Dandelion em uma tentativa de refazer seus passos. Os dois voltaram à taverna onde ele estivera antes e revisaram as lembranças da passagem dos goblins, do gato e dos encontros com Poppe.
Quando já estavam saindo, Allya percebeu algo que seus olhos não haviam identificado: o cheiro de Leonard. O odor lhe pareceu familiar e inconfundível, associado ao movimento da taverna, mas ela não conseguiu localizar o homem. Ao tentar investigar, não encontrou ninguém que confirmasse sua presença. A pista desapareceu quase tão rápido quanto surgira.
Pouco depois, o mesmo cheiro reapareceu, ainda que muito fraco — desta vez vindo do bolso da própria Allya. Ela encontrou dois objetos que não se lembrava de ter guardado: um pequeno sino com uma marca reconhecível e um papel com um endereço.
O pequeno sino lhe trouxe uma lembrança terrível. Seu símbolo era associado aos lycans que haviam atacado sua aldeia quando ela era mais nova. O grupo não soube quem havia colocado aqueles objetos em seu bolso, nem se Leonard estivera diretamente envolvido no gesto. Mas a mensagem era pessoal demais para ser tratada como coincidência.
O ataque à aldeia
Perturbada, Allya levou Dandelion para o quarto da taverna e pediu que os outros se reunissem ali. Quando todos chegaram, mostrou o sino e explicou seu significado. Os atacantes que destruíram sua aldeia carregavam aquela marca; alguém ligado àquela noite poderia estar próximo o suficiente para alcançá-la sem ser visto.
A conversa fez Allya recontar, com mais detalhes, a própria história. Antes da transformação, ela vivera em uma aldeia relativamente tranquila, que recebia viajantes e onde os habitantes levavam uma vida simples. O ataque aconteceu de surpresa, durante uma noite de lua cheia. Lycans, entre eles criaturas com características de morcego, invadiram as casas e mataram os moradores.
Allya foi mordida, mas não morta. Ela acreditava que a criatura que a atingira a havia marcado. Conseguiu escapar com a irmã; depois de dias fugindo, ambas encontraram Leonard e a jovem Screaky. Leonard as levou para um local onde Allya pôde aprender a controlar a transformação. Sua irmã permaneceu naquela comunidade quando Allya seguiu seu próprio caminho.
A transformação trouxe capacidades extraordinárias, mas não domínio absoluto sobre elas. Allya explicou que conservava a consciência mesmo nas condições mais difíceis, embora a lua cheia ainda prejudicasse o controle de sua força.
Havia mais uma particularidade: uma espécie de ligação entre Allya e o lycan que a transformara. Se ele estivesse suficientemente próximo, ela acreditava que ambos poderiam perceber essa presença. Allya ainda não sentira tal conexão em Valcinzento. Isso não eliminava o perigo, mas sugeria que seu agressor talvez não estivesse nas imediações naquele momento.
O grupo decide não esperar os perseguidores
As pistas deixaram os companheiros em alerta. Noah lembrou que alguém já observara uma transformação de Allya na floresta, e a possibilidade de rastreamento tornava Valcinzento um lugar cada vez menos seguro para ela.
O grupo resolveu organizar a saída. Astel sugeriu vigilância e quartos próximos, com os companheiros se revezando na proteção de Allya. Também consideraram que o transporte através de plantas, utilizado por Noah, poderia interromper um eventual rastro físico deixado para os perseguidores.
A ameaça não fora resolvida, e o endereço do bilhete ainda precisava ser investigado. Por ora, a prioridade seria concluir o compromisso assumido com Calengur e deixar a cidade antes que a situação piorasse.
O plano para o Coração-Raiz
A proteção que a cidade não sabia possuir
O retorno de Astel permitiu revisitar o pedido de Calengur. Noah explicou que o drow sofria por uma imortalidade indesejada e que o Ent acreditava poder ajudá-lo, desde que Calengur e o Coração-Raiz de Valcinzento fossem levados até ele.
O problema era o próprio coração: aquele galho luminoso instalado no monumento da cidade não era uma simples decoração. Tinha uma função de proteção que seus moradores, guardas e até o prefeito não compreendiam plenamente. Retirá-lo poderia abrir caminho para as forças corrompidas da floresta.
Astel não queria colocar inocentes em risco, e Noah tampouco. Ainda assim, acreditavam que poderiam cumprir a tarefa se conseguissem agir depressa e ocultar a ausência do coração.
Depois de examinar o monumento e as rotas ao redor, elaboraram um plano baseado na troca de corpos. Dandelion, utilizando a agilidade, o voo e a invisibilidade do corpo de Screaky, retiraria o Coração-Raiz. Screaky, com as capacidades mágicas do corpo de Dandelion, criaria uma ilusão duradoura que fizesse parecer que a peça continuava no monumento.
Astel investigou as patrulhas da cidade; Screaky estudou os acessos e procurou memorizar a aparência do coração; Noah avaliou o que seria necessário para sustentar o disfarce. Como a cidade concentrava a vigilância em suas muralhas e nas ameaças de fora, o monumento não parecia receber atenção especial dos guardas.
Decidiram agir na manhã seguinte, para não enfrentar o pior da floresta durante a noite. Enquanto os demais se preparavam, Noah estudou magias que pudessem ajudar na sobrevivência do grupo, inclusive formas de dar propriedades flamejantes às armas contra as plantas corrompidas. Houve ainda tempo para pequenas experiências mágicas, conversas entre os amigos e uma noite de vigília que transcorreu sem ataque.
O roubo que fez o céu escurecer
Ao amanhecer, os papéis estavam definidos. Astel, Noah e Allya aguardariam fora da cidade, preparados para partir. Screaky e Dandelion seguiriam até o monumento, mantendo contato com os demais por meio das pedras de comunicação.
Dandelion tornou-se invisível e aproximou-se do topo. De lá, verificou que o movimento da manhã ainda era pequeno: alguns comerciantes e moradores começavam o dia sem prestar atenção à parte superior do monumento. Quando julgou seguro, sinalizou a Screaky para iniciar a ilusão.
Mas havia um detalhe que o plano não considerara suficientemente. O Coração-Raiz estava profundamente preso à pedra. As primeiras pancadas e tentativas de puxá-lo pouco fizeram. Dandelion precisou forçar a base até começar a rompê-la.
Foi então que uma seiva espessa começou a escorrer pelo monumento. Quanto mais a raiz se soltava, mais líquido perdia, como se a própria planta estivesse ferida. Dandelion finalmente a arrancou, enquanto Screaky procurava concluir a imagem ilusória que esconderia a ausência da peça.
A consequência foi imediata. Uma revoada de pássaros atravessou os céus. Nuvens cobriram o sol e uma sensação repentina de escuridão se espalhou por Valcinzento. Até os companheiros que esperavam fora da cidade perceberam que algo mudara.
Dandelion correu carregando o coração invisível, mas a seiva deixou marcas pelo caminho. Tentou conter o vazamento enquanto se afastava, sabendo que aquela operação não passara despercebida à própria natureza.
O enxerto de Noah
Quando o grupo se reuniu, Noah ficou devastado ao ver o estado do Coração-Raiz. Para ele, aquilo não era um objeto mágico que pudesse ser simplesmente arrancado e recolocado: era uma coisa viva. Repreendeu Dandelion pela brutalidade e tomou o coração nas mãos.
Tentou encontrar uma magia capaz de restaurá-lo, mas não tinha uma solução pronta. Em vez disso, recorreu ao conhecimento mais simples e concreto que possuía sobre plantas: fez um enxerto, utilizando outros galhos e materiais vegetais para proteger a parte rompida e conter a perda de seiva.
Depois de alguns minutos de trabalho cuidadoso, o coração estava muito mais próximo de sua forma anterior. Noah não apagou o que acontecera, mas ofereceu à raiz uma chance de continuar viva. Mantendo-a junto de si, partiu com os companheiros e os cavalos em direção ao Ent corrompido.
A missão que não tinha uma resposta simples
O retorno a Calengur
Os aventureiros chegaram à área do Ent e desceram novamente pela passagem até a caverna onde Calengur permanecia. A escuridão mágica utilizada para atravessar as defesas vegetais ajudou o grupo no percurso. Noah, ansioso para terminar a tarefa, avançava quase mais rápido do que os demais conseguiam acompanhar.
Calengur continuava ali, enfraquecido e preso à própria condição. Ao ver o grupo, perguntou se finalmente haviam voltado para matá-lo. Em vez disso, Noah explicou que trouxeram uma possível forma de ajudá-lo.
Astel carregou o drow, demasiado debilitado para acompanhar o ritmo do grupo, enquanto Noah abriu o caminho por meio da magia de transporte através de plantas. Assim, chegaram à presença do Ent com os dois elementos solicitados: Calengur e o Coração-Raiz.
Entre uma vida e uma cidade
O Ent examinou o coração ferido e aproximou seus galhos de Calengur. Ao tocá-lo, pareceu estabelecer uma conexão profunda com o drow, que entrou em transe. A interação trouxe à tona lembranças e palavras ligadas ao passado e ao poder que ele perdera.
A esperança durou pouco. O Ent explicou que precisaria de tempo demais para tentar resolver a condição de Calengur. Manter o Coração-Raiz afastado de Valcinzento durante todo esse período deixaria a cidade vulnerável. Ele não aceitaria salvar uma vida à custa do sofrimento de tantas outras.
Noah ouviu a conclusão como uma derrota. Havia ajudado a remover o coração, tentado repará-lo, trazido Calengur de volta e arriscado a segurança de Valcinzento. Mesmo assim, o objetivo não seria alcançado daquela vez. O Ent ordenou que levassem o coração de volta enquanto ainda havia tempo.
Noah e o coração que despertou
“Você falhou uma vez. É só não falhar de novo.”
Arrasado, Noah afastou-se do grupo e começou a chorar. Calengur, apesar da fraqueza, aproximou-se da criança. Não lhe ofereceu o consolo que ela esperava. Falou de falhas, de mudança e do potencial que via naquele pequeno mestre da natureza.
Noah respondeu com a insegurança que carregava havia muito tempo. Acreditava não ser bom o bastante; comparava-se aos magos que conhecera e às expectativas de sua família. Para ele, cada fracasso parecia confirmar que não conseguia corresponder ao caminho que havia escolhido.
Calengur insistiu que o menino não precisava continuar preso à imagem de si mesmo que aprendera a defender. Tocou seu peito e pediu que deixasse de se apegar apenas àquele papel, que descobrisse o que realmente poderia ser. Noah interpretou aquelas palavras como mais uma tentativa de desvalorizar tudo pelo que havia estudado e lutado.
A discussão se tornou cada vez mais intensa. O drow chegou a agarrar as roupas do garoto e a exigir que abandonasse aquilo que acreditava defini-lo. Noah, cada vez mais irritado, repetiu que suas vestes, sua magia e seu passado faziam parte de quem ele era.
O urso, as garras e a raiz
Sem perceber, Noah começou a mudar. A voz ficou grave, o corpo cresceu e sua forma humana cedeu lugar à de um urso. A transformação acompanhou o auge de sua revolta, não uma decisão tranquila de usar magia.
O Coração-Raiz, que ele ainda segurava, reagiu à mudança. Diante dos olhos do grupo, começou a se incorporar ao corpo de Noah, em vez de simplesmente permanecer como o objeto que haviam levado ao Ent.
Tomado pela emoção, Noah avançou sobre Calengur e o atingiu repetidas vezes. O menino acreditava estar apenas afastando quem o feria com palavras, mas, transformado, seus golpes tinham a força e as garras de um urso. A imortalidade do drow impedia um fim definitivo, não o sofrimento de seus ferimentos.
Astel interveio, aproximando-se de Noah e tentando detê-lo sem machucá-lo. Allya também se aproximou, procurando acalmar a criança. Aos poucos, Noah conseguiu interromper o ataque e recuperar a própria forma.
Quando a situação finalmente se acalmou, os companheiros notaram uma nova manifestação da raiz: uma proteção semelhante a um peitoral de madeira nos ombros e no peito de Calengur. O Coração-Raiz reagira a Noah durante a transformação, mas a relação exata dessa nova proteção com o que havia acontecido não ficou esclarecida.
Astel usou seus poderes de cura para ajudar Calengur a se recuperar dos ferimentos. O drow, apesar de tudo, continuava tratando Noah como alguém de enorme potencial.
Amigos, não mais professores
Depois da violência, Noah não se mostrou triunfante. Escondeu o rosto, envergonhado, e voltou a falar das próprias falhas. Allya o abraçou e tentou confortá-lo, lembrando que seus companheiros tinham motivos de sobra para se orgulhar dele. O grupo não o via como uma criança inútil nem como alguém que precisava ser expulso por cometer um erro.
Noah, no entanto, temia exatamente isso. O abandono dos pais e outras separações de seu passado ainda pesavam em sua maneira de compreender os vínculos. Perguntou se os amigos não ficariam zangados ou o deixariam para trás, como tantas outras pessoas haviam feito.
Calengur observou a cena e reconheceu algo importante: Noah já tivera professores suficientes. Precisava de amigos que permanecessem ao seu lado.
Mais tarde, falando com Astel, o drow insistiu que o garoto talvez precisasse se libertar de algumas amarras, especialmente da ideia de que só seria alguém se cumprisse determinado ideal acadêmico. Astel não aceitou isso como uma ordem simples para destruir livros ou fazê-lo desistir da magia. Reconheceu o potencial de Noah e questionou como poderiam ajudá-lo sem impor outra vontade sobre ele.
A conversa se transformou em uma reflexão sobre orientação e cuidado. Calengur disse a Astel que, embora talvez não fosse o mais versado nas magias de Noah, poderia ajudá-lo de outra maneira: sendo para ele uma presença semelhante à de um pai. A decisão sobre o próprio caminho precisaria, no fim, pertencer ao garoto.
De volta a Valcinzento
Um mestre da natureza
Enquanto o grupo se preparava para devolver o coração, uma expressão usada por Calengur continuou na mente de Astel: mestre da natureza.
Astel lembrou-se de Mohan, um druida que conhecera em aventuras anteriores e que fora associado a esse título. Ele dominava forças antigas da natureza e dos animais. A lembrança sugeriu uma possibilidade: as habilidades de Noah — inclusive sua relação com plantas e a transformação em urso — talvez apontassem para algo diferente da trajetória de mago que o menino procurava seguir.
Isso era, porém, uma interpretação dos companheiros, não uma resposta definitiva sobre a identidade ou o futuro de Noah. Astel cogitou procurar conselhos de pessoas mais experientes, em vez de decidir por ele.
O coração deve voltar
O Ent reiterou que o coração precisava retornar a Valcinzento, mas trouxe uma informação importante: ele não dependia do monumento de pedra para continuar cumprindo sua função. Poderia ser colocado na terra e crescer, desde que permanecesse no lugar que precisava proteger.
Astel ajudou o grupo a recuperar as forças e Noah voltou a utilizar o transporte através de plantas para regressar à cidade. O menino ainda se sentia culpado, mas os amigos continuavam contando com ele para desfazer o risco que haviam criado.
Calengur não estava livre de sua condição. Astel providenciou meios para devolvê-lo à região do Ent corrompido, evitando que precisasse enfrentar sozinho o caminho. O drow fez um último alerta: não deveriam colocá-lo novamente perto de Noah. A presença de alguém com aquele poder sobre a natureza era tentadora demais para quem estava submetido à corrupção e à sua própria condição. Nem ele desejava descobrir o que poderia acontecer se cedesse a essa tentação.
Uma pequena árvore no lugar de um monumento
De volta a Valcinzento, Noah procurou um ponto de terra onde a raiz pudesse crescer sem ser pisoteada ou quebrada pelos moradores. Em vez de recolocá-la à força no monumento, passou a plantar o Coração-Raiz, seguindo a orientação recebida do Ent.
Astel e os demais foram se reagrupando ao redor do menino. Dandelion, ainda no corpo de Screaky, acompanhou a cena com a inquietação habitual e chegou a ciscar a terra ao lado dele — imagem quase inevitável para encerrar uma aventura em que tanta coisa havia escapado ao controle dos personagens.
A sessão terminou nesse gesto simples: Noah tentando fazer a raiz crescer novamente. Não era a cura de Calengur, nem a solução da troca de corpos, nem a derrota dos perseguidores de Allya. Mas, depois de todas as promessas, feridas e escolhas difíceis, era uma tentativa concreta de cuidar de algo vivo.
Estado ao final da sessão
- Astel está livre da Biblioteca Infinita e reuniu-se ao grupo em Valcinzento.
- Poppe cumpriu a parte do plano que permitiu a saída de Astel, mas seu paradeiro e a maneira como pretende sair da Biblioteca não foram confirmados. Noah prometeu procurá-lo se ele não conseguir voltar.
- Screaky e Dandelion continuam nos corpos um do outro. Conseguem acessar habilidades dos corpos ocupados, mas ainda desconhecem a causa e a solução da troca.
- Allya identificou o cheiro de Leonard perto de uma taverna e encontrou em seu bolso um pequeno sino associado aos lycans que atacaram sua aldeia, além de um bilhete com endereço. Não está esclarecido quem colocou os objetos ali.
- A ameaça dos lycans continua aberta. Allya descreveu sua transformação, a fuga com a irmã e a ligação com a criatura que a mordeu, mas não sentiu a presença dessa criatura nas proximidades.
- O Coração-Raiz foi arrancado de seu monumento em Valcinzento. O grupo percebeu alterações no ambiente e Noah reparou os danos mais graves com um enxerto.
- Calengur continua condenado à sua condição. O Ent não conseguiu curá-lo sem manter o coração longe da cidade por tempo demais.
- Noah se transformou em urso durante o confronto com Calengur, e o coração reagiu à transformação. O coração reagiu à transformação de Noah e, depois, uma proteção de madeira foi observada em Calengur; o alcance dessas mudanças ainda não é conhecido.
- O grupo começou a reconsiderar o caminho mágico de Noah, sem que ele tivesse tomado uma decisão definitiva sobre o próprio futuro.
- Noah iniciou o replantio do Coração-Raiz em Valcinzento, atendendo à orientação do Ent de que ele não precisava permanecer incrustado no monumento.
Ganchos para a próxima sessão
Poppe e a promessa
- Onde Poppe está depois do ritual que libertou Astel?
- Ele realmente conhece uma maneira de sair da Biblioteca Infinita?
- Noah terá de cumprir o juramento de ir buscá-lo?
- O jovem que acompanhou Dandelion é o mesmo Poppe que o grupo teme? O que explica seu comportamento diferente?
Screaky e Dandelion
- Que acontecimento provocou a troca de corpos?
- Como desfazê-la sem colocar os dois em risco?
- A investigação das ações de Dandelion e de sua viagem com Poppe poderá revelar alguma pista concreta?
Allya, Leonard e os lycans
- Quem colocou o pequeno sino e o bilhete no bolso de Allya?
- O cheiro de Leonard indica sua presença real em Valcinzento ou uma pista deixada de propósito?
- A que lugar conduz o endereço do papel?
- Os lycans ligados à destruição da aldeia descobriram o paradeiro de Allya?
Noah e o Coração-Raiz
- O replantio conseguirá restabelecer a proteção de Valcinzento?
- O que significa o coração ter reagido ao corpo de Noah?
- A proteção de madeira e sua nova relação com a natureza terão outras consequências?
- Noah encontrará uma maneira de conciliar o que aprendeu como mago com o poder que parece despertar nele?
Calengur e a corrupção
- Existe outra maneira de encerrar a imortalidade de Calengur sem colocar Valcinzento em perigo?
- Por que a proximidade de Noah representa uma tentação tão forte para o drow?
- O que o Ent, Calengur e a história do Coração-Raiz ainda podem revelar sobre a corrupção e o misterioso Jardineiro?
