Entre Canções e Raízes Corrompidas
Sessão: 19/08/2026 Arco: Valcinzento / Coração-Raiz / Infiltração no Castelo
A jornada continuou dividida em duas frentes. Enquanto Allya, Screaky e Noah avançavam pela floresta em direção a Valcinzento, tentando recuperar o Coração-Raiz sem prejudicar as pessoas que dependiam dele, Dandelion permanecia ao lado do jovem Poppe, que seguia usando o codinome James para circular sem levantar suspeitas.
O que parecia ser apenas um intervalo entre missões acabou abrindo duas linhas importantes: de um lado, Noah se aproximou ainda mais do mistério que liga seu espírito à própria floresta; do outro, Dandelion descobriu que, mesmo quando finalmente prepara um espetáculo com antecedência, sua maior força continua sendo abandonar o plano no momento certo e deixar a plateia conduzir a música.
A viagem até Valcinzento
Allya, Screaky e Noah ainda tinham aproximadamente dois dias de caminhada pela frente. Com Longstrider acelerando o ritmo, o grupo manteve a viagem constante, sem procurar desvios ou confusão pelo caminho.
Noah passou boa parte do trajeto fazendo aquilo que vinha se tornando cada vez mais natural para ele: conversar com as plantas.
Desde o sacrifício de uma de suas memórias, algo também havia mudado em sua personalidade. A perda não funcionou apenas como uma lembrança apagada; para Noah, o acontecimento que havia abalado sua amizade com Luke deixou de existir da mesma maneira em sua história. Como consequência, ele parecia agora um pouco mais seguro, menos fechado e mais disposto a expressar o que sentia, embora continuasse sendo tímido.
Allya percebia essa mudança e, sempre que possível, tentava verificar se ele estava bem. Screaky seguia sendo muito mais econômica nas palavras, mantendo sua presença silenciosa e direta.
Havia, porém, uma coisa que Noah ainda não conseguia explicar.
O Velho Amarantus havia chamado Noah de “pequeno mestre”. Noah inicialmente interpretou aquilo como uma forma estranha do Ent se dirigir às pessoas. Só que as próprias plantas começaram a chamá-lo de mestre também.
Noah decidiu que provavelmente elas simplesmente não sabiam direito o que estavam dizendo.
A floresta, aparentemente, discordava.
O despertar de Dandelion e Poppe
Enquanto isso, Dandelion acordou no alojamento dos guardas ao lado de Poppe.
Poppe continuava utilizando James como nome falso sempre que precisava se apresentar publicamente. Dandelion, naturalmente, tinha alguma dificuldade em lembrar disso.
O bardo acordou muito mais empolgado do que seu companheiro e começou o dia tocando um pagode alegre praticamente em cima dele, tentando acelerar cada segundo da manhã.
Poppe reuniu suas coisas, mas em vez de vestir a armadura amarrou as peças e passou a carregá-las como uma grande mochila metálica. Dandelion tentou ajudá-lo a recolher seus pertences e, no processo, começou a pegar chaves, moedas, latas vazias e até objetos que nem pertenciam a eles.
Algumas coisas precisaram ser devolvidas.
Outras apenas foram jogadas para o lado.
Organização nunca foi exatamente a escola de magia preferida do Dandelion.
Uma dívida com os guardas
Ao deixarem o alojamento, os dois encontraram o quartel em plena troca de turno.
Os guardas que haviam trabalhado durante a noite reconheceram Dandelion imediatamente e o cumprimentaram como “senhor músico”. Para homens acostumados a turnos praticamente parados, a confusão da noite anterior havia sido um acontecimento memorável.
Dandelion aproveitou para perguntar pelos guardas que tinham permitido sua entrada na cidade. O capitão Oren Vale havia ameaçado puni-los por deixarem Dandelion e Poppe passar, e o bardo não queria que eles fossem penalizados por terem ajudado.
Ele descobriu que nenhuma punição havia sido aplicada ainda.
Dandelion agradeceu aos homens pela passagem e deixou claro que se sentia em dívida com eles. Os guardas, apesar da ameaça de castigo, pareciam genuinamente satisfeitos por terem feito algo importante naquela noite.
Com aquilo resolvido por enquanto, Dandelion voltou sua atenção para uma necessidade muito mais urgente:
café da manhã.
Ou, no caso dele, cerveja.
Raíssa e o “Super Pato”
Um dos guardas indicou uma pequena taverna próxima ao quartel.
Na porta, o proprietário Breno Belmonte tentava expulsar um bêbado que havia praticamente adotado a entrada do estabelecimento como cama. O homem estava completamente destruído pela bebida.
Dandelion olhou para ele e respondeu com a compreensão de quem conhecia aquela batalha:
“Eu sei como é, irmão.”
Poppe apenas passou tampando o nariz.
Dentro da taverna, Poppe pediu café. Dandelion pediu cerveja.
A filha do taverneiro, Raíssa Belmonte, trouxe o pedido e imediatamente ficou curiosa com o enorme pato à sua frente. Ela tentava olhar discretamente, desviando os olhos sempre que percebia que poderia ter sido descoberta.
Dandelion percebeu.
E resolveu ajudar:
“Eu mordo, sim.”
A conversa piorou — ou melhorou — rapidamente.
Quando Raíssa tentou entender exatamente o que ele era, Dandelion se apresentou praticamente como um super pato. Ao ser questionado sobre o que havia de “super” nele, a explicação ficou essencialmente relacionada ao tamanho.
Poppe começou a rir e chegou a cuspir o café.
Dandelion então esclareceu que, além de pato, era músico.
E dos bons.
Raíssa disse que o nome Dandelion parecia familiar, embora não soubesse exatamente de onde. Ela sequer sabia que ele era músico.
Aquilo foi convite suficiente.
Dandelion puxou o alaúde e tocou um pequeno solo para demonstrar seu talento.
Poppe, já assumindo espontaneamente o papel de divulgador do bardo, afirmou que aquilo não era nada perto do que Dandelion poderia fazer em uma apresentação de verdade.
Raíssa quis saber onde seria o show.
Ainda não havia show.
Mas agora Dandelion tinha um motivo para arrumar um.
Um plano perfeito para Poppe: deixar Dandelion chamar atenção
Depois do café, Dandelion perguntou a Poppe qual seria o plano.
Poppe precisava continuar circulando pela cidade sem chamar atenção, preservar a identidade falsa de James e avançar discretamente em direção aos próprios objetivos.
Felizmente, ele estava acompanhado da criatura menos discreta da região.
Um pato gigante, alado, bardicamente incapaz de permanecer em silêncio e naturalmente atraído por qualquer coisa que pudesse ser chamada de palco.
A solução era simples:
quanto mais gente olhasse para Dandelion, menos gente olharia para Poppe.
Dandelion não viu problema algum nessa estratégia.
Receber atenção era praticamente parte do pagamento.
Procurando um palco
Poppe levou Dandelion pela cidade até uma segunda taverna onde já havia visto músicos se apresentarem.
Quando chegaram, o músico Tomas Vell estava terminando sua apresentação e guardando seu instrumento. Ele explicou que, para tocar ali, Dandelion precisaria conversar diretamente com o proprietário.
O estabelecimento era muito diferente da pequena taverna próxima ao quartel.
Não era exatamente um exemplo de limpeza ou refinamento. Bebidas eram derramadas, copos se acumulavam e o proprietário parecia acreditar que qualquer líquido eventualmente secaria sozinho.
Mas havia uma coisa realmente importante:
um palco.
E era um palco de verdade.
Grande o suficiente para vários músicos, com espaço diante dele para pessoas dançarem.
O proprietário, Garrick Dorn, ouviu a proposta de Dandelion.
O bardo explicou que não costumava exigir pagamento direto por suas apresentações. Preferia receber gorjetas do público.
O acordo acabou sendo simples:
Dandelion ficaria com as gorjetas, enquanto Garrick forneceria comida para ele e Poppe.
Negócio fechado.
Pela primeira vez, Dandelion prepara um show
Com um palco disponível, Dandelion fez algo incomum.
Ele realmente planejou a apresentação.
Organizou a posição dos instrumentos, preparou entradas, pensou na movimentação e colocou sua orquestra fantasma nos lugares certos.
Foi também durante essa preparação que Poppe teve contato mais direto com os quatro pequenos fantasmas que acompanhavam Dandelion:
Pipipi, Popopo, Pupupu e Tatata.
Dandelion imaginou uma abertura para a noite e preparou tudo para executá-la.
Era, provavelmente, uma das apresentações mais organizadas que já havia montado.
Então apareceu um casal.
E o planejamento durou até ali.
Lino, Mara e a música que mudou o show
Antes que Dandelion pudesse iniciar a abertura preparada, um casal humilde se aproximou.
Lino e Mara queriam pedir uma música conhecida, algo que pudessem dançar juntos.
Lino ofereceu dinheiro pelo pedido. Mara demonstrou preocupação, perguntando se ele tinha certeza, porque aquela quantia poderia fazer falta para os dois.
Eles claramente não tinham muito.
Mas havia algo muito mais evidente:
eram felizes juntos.
Dandelion observou os dois e tomou uma decisão imediata.
A abertura que havia planejado deixou de importar.
Ele aceitou o pedido.
Em vez de obrigar a plateia a seguir o espetáculo que havia preparado, Dandelion adaptou o espetáculo à plateia.
A música começou.
Lino e Mara começaram a dançar.
Outras pessoas observaram.
Depois acompanharam.
Mais gente levantou.
E aquela pequena mudança no plano transformou completamente a noite.
O show havia sido cuidadosamente preparado.
A festa nasceu do improviso.
A magia de Amarantus começa a desaparecer
Enquanto Dandelion encontrava sua plateia, a floresta ao redor de Noah começava a ficar silenciosa.
Quanto mais Allya, Screaky e Noah se afastavam do Velho Amarantus, menos plantas conseguiam responder.
Primeiro várias falavam.
Depois algumas.
Até restarem apenas poucas vozes.
Noah perguntou a uma das últimas plantas por que aquilo estava acontecendo.
Ela explicou que a magia de Amarantus perdia força conforme a distância aumentava.
Mas havia uma forma de restaurá-la.
Se Noah recuperasse o Coração-Raiz, a influência de Amarantus voltaria a se espalhar.
E então toda a floresta poderia falar com Noah.
A notícia deixou o garoto imediatamente feliz.
Ele se abaixou perto da planta, fez carinho nela como se estivesse acariciando um pequeno animal e prometeu trazer o Coração-Raiz de volta.
Pouco depois, as últimas vozes desapareceram.
A floresta voltou ao silêncio.
Thalindra em meditação
Durante a viagem, Screaky verificou o estado de Thalindra.
A imagem que encontrou era diferente do habitual.
Thalindra estava em profunda meditação ou oração. Suas roupas pareciam flutuar ao redor do corpo, quase ignorando a gravidade, enquanto uma luz clara transformava sua figura em tons próximos de branco e cinza.
Ela repetia uma longa sequência de palavras em oração.
Mais tarde, Poppe avaliaria que Thalindra provavelmente permaneceria naquele estado por pelo menos uma semana.
Era apenas sua estimativa.
Mas para Dandelion e Poppe, significava que talvez houvesse mais tempo disponível do que haviam imaginado.
A taverna vira uma festa
De volta à apresentação, a energia criada pelo casal se espalhou.
Dandelion começou a trabalhar com a reação da sala.
Refrões passaram a ser deixados para o público.
Momentos foram adaptados conforme as pessoas respondiam.
Os fantasminhas acompanharam as mudanças.
Uma dança puxava outra.
Pessoas que haviam entrado apenas para beber começaram a cantar.
Os funcionários mal conseguiam acompanhar os pedidos.
Mais gente apareceu.
A taverna começou a lotar.
Até um homem que inicialmente demonstrava pouco interesse no “pato cantor” acabou se aproximando cada vez mais do palco e terminou a noite completamente conquistado.
Dandelion percebeu aquilo e fez o que sempre fazia melhor:
puxou o público ainda mais para dentro da apresentação.
Não havia mais uma divisão clara entre artista e plateia.
Era uma festa.
E tudo havia começado com duas pessoas querendo dançar juntas.
O dinheiro que Dandelion esqueceu
A apresentação continuou até muito tarde.
Quando tudo finalmente começou a terminar, Dandelion estava fisicamente acabado.
Mas satisfeito.
As pessoas saíam agradecendo pelo show. Algumas ainda cantavam partes das músicas enquanto deixavam o local.
Poppe perguntou quanto ele havia conseguido em gorjetas.
Dandelion demorou alguns instantes para perceber uma coisa:
ele tinha praticamente esquecido do dinheiro.
Precisou voltar para recolher o recipiente onde o público havia deixado as moedas.
Para Dandelion, o pagamento real já havia acontecido.
As pessoas tinham se divertido.
Tinham dançado.
Tinham lembrado seu nome.
Quatro noites para o maior bardo do mundo
Garrick Dorn ficou impressionado com o resultado.
Aquela apresentação havia trazido muito mais gente do que esperava e feito a taverna trabalhar como poucas vezes.
Ele pediu que Dandelion permanecesse por mais algumas noites.
Ofereceu quarto, comida e liberdade para continuar recebendo suas próprias gorjetas.
Dandelion inicialmente hesitou.
Não queria ficar preso à mesma plateia.
Seu objetivo continuava sendo aumentar o alcance de seu nome, viajar e fazer cada vez mais pessoas conhecerem suas músicas.
Ele queria se tornar:
o maior bardo de todos os tempos.
Poppe então consultou suas anotações e explicou que, pela estimativa dele, Thalindra ainda permaneceria em meditação durante vários dias.
Havia uma janela.
Dandelion aceitou.
Faria mais quatro apresentações.
Depois daquela noite, entrou no quarto completamente destruído, largou as coisas e caiu na cama.
Mesmo adormecendo, continuou murmurando trechos de música.
Poppe só pôde constatar que Dandelion aparentemente cantava até dormindo.
A floresta muda quando a noite chega
A viagem de Allya, Screaky e Noah tomou um rumo completamente diferente quando anoiteceu.
O ar da floresta ficou pesado.
Havia alguma coisa à frente.
Uma presença escura.
Eles ainda estavam a uma distância razoável, mas Noah sentiu aquilo de maneira muito mais intensa do que as outras.
Não parecia apenas magia maligna.
Era algo maligno dentro da própria natureza.
Seu espírito reagiu imediatamente.
E a conexão entre os dois ficou violentamente forte.
A visão do Corruptor
Através de seu espírito, Noah recebeu uma imagem.
Um elfo extremamente magro.
Na cabeça, carregava algo semelhante ao crânio de um animal com chifres.
Nas mãos, um cajado fossilizado.
Para Noah, aquele cajado parecia uma versão morta e apodrecida do próprio cajado florido que carregava.
A sensação transmitida por seu vínculo espiritual permitiu que ele compreendesse parcialmente o que estava vendo.
Não era conhecimento acadêmico.
Era quase instinto.
A criatura parecia representar uma espécie de inversão daquilo que Noah entendia como um druida:
alguém conectado à natureza, mas que utilizava essa conexão para corromper, apodrecer e retirar poder da destruição.
Um Corruptor da Natureza.
Noah percebeu que aquilo provavelmente estava relacionado à doença que se espalhava pela floresta.
Noah perde o controle
A visão não afetou apenas a mente de Noah.
Do lado de fora, Allya e Screaky viram seu corpo começar a mudar.
Seus olhos ficaram brancos, atravessados por pequenas formas semelhantes a estrelas.
Uma aura tomou seu corpo.
Então diferentes características animais começaram a surgir ao mesmo tempo.
Um chifre.
Uma asa.
Um casco.
Uma pata.
Membros deformados.
Por alguns instantes, Noah pareceu uma pequena quimera formada por transformações que não deveriam coexistir daquela maneira.
Transformações involuntárias já haviam acontecido antes.
Aquilo, porém, era diferente.
Era muito mais intenso.
O selo nas costas de Noah
Foi então que Allya percebeu algo ainda mais preocupante.
O grande selo mágico escondido nas costas de Noah começou a brilhar em roxo, forte o suficiente para atravessar sua roupa.
Por seus conhecimentos arcanos, Allya conseguiu compreender pelo menos a função geral daquele símbolo.
Alguma coisa estava selada dentro de Noah.
Ela não sabia o quê.
Mas naquele momento parecia que essa coisa estava tentando forçar o selo.
Noah não percebeu o que Allya havia descoberto.
E Allya não contou a ele.
Ela apenas se aproximou e tocou suavemente seu ombro.
O contato o confortou.
Aos poucos, as transformações começaram a desaparecer.
Um braço que havia assumido uma forma monstruosa voltou a ser o braço de uma criança.
A escuridão ao redor dele diminuiu.
Noah recuperou o controle.
Uma miniatura para não esquecer
Antes que a imagem do Corruptor desaparecesse de sua mente, Noah utilizou magia para criar uma pequena representação física da criatura.
Assim, Allya e Screaky puderam finalmente ver aquilo que apenas ele havia enxergado através de seu espírito.
Noah explicou o que havia compreendido.
O Corruptor parecia estar ligado à destruição da floresta.
Aquilo o afetou profundamente.
Lágrimas começaram a correr por seu rosto.
Noah não sabia exatamente quem aquela criatura era nem como funcionavam seus poderes.
Mas havia uma coisa que sabia:
aquilo precisava parar.
Se fosse possível remover seus poderes, ótimo.
Se fosse possível prendê-lo, melhor ainda.
Se fosse necessário derrotá-lo definitivamente, então seria isso.
A corrupção da floresta não podia continuar.
Um plano para salvar a floresta sem condenar a cidade
Noah começou a ligar os acontecimentos.
O Coração-Raiz precisava voltar para Amarantus.
Mas Amarantus havia deixado claro que o povo que dependia dele como proteção não poderia ser prejudicado.
Então simplesmente entrar em Valcinzento, pegar o objeto e fugir não era aceitável.
Noah imaginou outra solução.
Se o Corruptor fosse a ameaça que obrigava Valcinzento a depender daquela proteção, então o grupo poderia primeiro eliminar o problema.
Depois, com a cidade segura, poderiam negociar a devolução do Coração-Raiz.
Assim, a floresta recuperaria aquilo que precisava para sobreviver sem deixar os habitantes indefesos.
Era um plano.
Ainda baseado em várias hipóteses.
Mas era o melhor caminho que tinham.
A presença que some durante o dia
Quando o dia voltou, Noah já não conseguia sentir a mesma presença sombria.
Isso não provava exatamente como o Corruptor funcionava, mas indicava que sua manifestação ou atividade estava fortemente ligada à noite.
Noah concluiu que, para encontrá-lo novamente, talvez fosse necessário inverter a rotina:
descansar durante o dia e agir durante a noite.
O grupo ainda não estava pronto para o confronto.
Então decidiram acelerar o passo e alcançar Valcinzento antes que escurecesse novamente.
Valcinzento
Allya, Screaky e Noah chegaram a Valcinzento ainda durante o dia.
A cidade parecia surpreendentemente normal.
Portões abertos.
Comerciantes trabalhando.
Moradores circulando.
Tavernas cheias.
Nada dentro das muralhas transmitia a mesma sensação de ameaça encontrada na floresta.
Mas havia algo no centro da cidade que imediatamente chamou a atenção do grupo.
Um grande monumento de pedra.
No meio dele, incorporado à estrutura, havia um pedaço de madeira antiga.
Para os habitantes, era apenas parte de um totem.
Para os aventureiros, a energia mágica denunciava outra coisa.
Tudo indicava que estavam olhando para o:
Coração-Raiz.
Edran Vilar, prefeito de Valcinzento
O grupo procurou alguém responsável pela cidade e encontrou o prefeito Edran Vilar.
Edran não estava isolado em uma grande construção administrativa. Circulava pelas ruas, conversava com moradores, ouvia reclamações e tentava resolver os pequenos problemas do cotidiano.
Depois de atender algumas pessoas, encontrou um momento para descansar encostado em uma parede, acendeu o cachimbo e observou a cidade.
Allya se aproximou.
Edran explicou que Valcinzento era relativamente tranquila desde que todos respeitassem uma regra muito simples:
ninguém deveria sair durante a noite.
Quando escurecia, os portões eram fechados.
Os guardas impediam moradores de sair e também evitavam abrir os portões para quem estivesse do lado de fora.
Não se tratava apenas de animais selvagens.
Havia alguma coisa mágica na floresta.
Algo perigoso.
Os moradores haviam aprendido a conviver com isso ao longo das gerações.
O prefeito não sabe o que guarda
Quando o grupo perguntou sobre o pedaço de madeira no monumento, Edran demonstrou não saber nada sobre sua verdadeira natureza.
Para ele, aquilo era simplesmente um antigo totem.
Uma obra muito velha.
Já estava ali no tempo de seu avô, talvez até antes.
Edran nem fingiu compreender completamente o significado artístico da estrutura.
Para a cidade, o Coração-Raiz havia se tornado apenas parte de sua história.
Para Noah, era literalmente parte da vida e da memória da floresta.
Noah tenta negociar como uma criança muito suspeita
Noah percebeu uma oportunidade.
Aproximou-se do prefeito com toda a inocência que conseguiu reunir, puxou sua roupa e tentou plantar uma ideia:
se suas “tias” derrotassem o monstro da floresta, então eles poderiam ficar com o totem.
Edran nunca havia prometido isso.
Noah apenas tentou criar o acordo enquanto falava.
Depois apontou para Screaky e Allya:
“Tia Screak! Tia Allya!”
Para reforçar a capacidade do grupo, ainda explicou que Screaky era extremamente forte — afinal, da última vez que ela o chutou, ele quase saiu voando.
O prefeito não caiu no golpe.
Deu um tapinha no garoto e praticamente o mandou voltar para suas “mães”.
Diplomacia infantil encerrada com sucesso questionável.
Primeiro o Corruptor, depois o Coração
Apesar da tentativa fracassada, Noah não abandonou o raciocínio.
A prioridade continuava sendo o Corruptor.
O grupo não deveria simplesmente retirar o Coração-Raiz enquanto Valcinzento ainda pudesse depender dele.
Primeiro precisavam descobrir o que acontecia na floresta durante a noite.
Depois resolveriam a questão do totem.
Screaky sugeriu que procurassem uma estalagem e descansassem antes da caçada.
Noah imediatamente apresentou uma solução alternativa:
sua Bottle of Boundless Coffee.
Café infinito.
Segundo ele, já tinha passado noites inteiras estudando com aquilo.
As meninas chegaram rapidamente à conclusão de que oferecer uma fonte ilimitada de cafeína para uma criança que ocasionalmente se transformava involuntariamente em várias criaturas ao mesmo tempo talvez não fosse a estratégia mais responsável.
Noah foi dormir.
Reclamando, é claro, porque havia acabado de acordar.
Dandelion acorda novamente sendo Dandelion
Na manhã seguinte à apresentação, Dandelion acordou muito menos energético.
Por alguns segundos.
Depois se aproximou de Poppe e resolveu começar o dia com:
“Dormiu bem, bebê?”
Poppe tentou expulsá-lo.
Dandelion respondeu cantando.
Era uma manhã normal.
Poppe então explicou melhor o próximo passo de sua missão.
Ele conhecia uma rota clandestina capaz de levá-los para muito perto do castelo.
Dandelion imediatamente começou a investigar a frequência com que Poppe visitava aquele lugar.
As respostas não ajudaram muito a reputação do jovem.
Um reencontro rápido
Enquanto Allya, Screaky e Noah procuravam uma estalagem, os dois grupos finalmente se cruzaram na mesma cidade.
Dandelion reconheceu Screaky.
E decidiu cumprimentá-la normalmente.
Ou seja:
tentou se aproximar escondido, abaixado, e agarrar sua perna como se algum monstro estivesse atacando.
Screaky percebeu sua presença antes.
Dandelion não percebeu que ela havia percebido.
O resultado foi alguns segundos de um pato convencido de que era um mestre da furtividade.
Depois da pequena confusão, Screaky perguntou o que ele estava fazendo ali.
Dandelion respondeu que estava trabalhando, conseguindo contatos e avançando em sua própria linha de investigação.
Screaky respondeu com algo bem mais direto:
eles estavam tentando salvar Astel.
A frase carregava a mesma tensão que já existia desde a separação do grupo.
Dandelion havia decidido continuar com Poppe.
Screaky, Allya e Noah haviam mantido Astel como prioridade.
O reencontro foi amigável o suficiente para não virar confronto, mas não apagou essa diferença.
Como as duas missões ainda estavam em andamento, cada lado continuou seu caminho.
Poppe e a rede clandestina
Poppe levou Dandelion até um estabelecimento aparentemente comum.
Ali, cumprimentou o proprietário Marek Senn utilizando sinais discretos e seguiu até os fundos.
Sacos e objetos escondiam uma passagem.
Depois de atravessá-la, o ambiente mudou completamente.
Música.
Conversas altas.
Pessoas circulando.
Uma operação clandestina escondida atrás de uma fachada normal.
Poppe claramente conhecia mais daquele submundo do que havia revelado.
O codinome James começava a fazer cada vez mais sentido.
Mas aquele ainda não era o verdadeiro segredo do lugar.
O portal vivo
Poppe levou Dandelion até uma parte mais escura e isolada.
Ali havia uma massa negra aderida à parede.
Uma criatura semelhante a uma sombra ou slime escuro, capaz de formar uma enorme boca.
Poppe tratava aquilo quase como um animal de estimação.
Ofereceu comida.
Fez carinho.
E explicou que precisava garantir que a criatura estivesse bem alimentada e de bom humor.
Porque ela era o portal.
Quando satisfeita, conseguia abrir uma passagem capaz de levar os dois diretamente para os esgotos muito próximos ao castelo.
Dandelion ficou fascinado.
Primeiro perguntou se a criatura mordia.
Depois quis fazer carinho.
Poppe recomendou que oferecesse pão antes.
Dandelion obedeceu.
Apesar da aparência gosmenta, a criatura era completamente seca ao toque.
A definição nasceu imediatamente:
um slime seco.
Dandelion quis um.
Naturalmente.
A moeda de Thalindra
Enquanto preparava o portal, Poppe mostrou a Dandelion uma moeda verdadeira marcada com o rosto de Thalindra.
O detalhe sugeria que a presença dela naquele reino ia muito além de uma simples figura distante.
Dandelion recebeu a moeda e aplicou o tradicional método científico para verificar metais preciosos:
mordeu.
Poppe não ficou particularmente impressionado com a demonstração de confiança.
A passagem para o castelo estava quase pronta.
O pior lugar possível para mandar Dandelion esperar
Poppe pediu que Dandelion aguardasse enquanto finalizava os preparativos.
O estabelecimento clandestino estava cheio de distrações.
Entre elas, várias mulheres.
Poppe fez apenas um pedido:
não se distraia.
Pouco depois, Dandelion já estava sentado com uma delas no colo e contando histórias sobre:
o grande Dandelion.
Tecnicamente, ele ainda estava esperando.
A sessão terminou com Poppe preparando o portal que os levaria para perto do castelo enquanto Dandelion aproveitava cada segundo disponível para aumentar a própria lenda.
Estado da jornada
Allya, Screaky e Noah
O trio chegou a Valcinzento e confirmou que o Coração-Raiz está incorporado a um antigo monumento da cidade.
Eles também descobriram que:
- os moradores parecem não conhecer a verdadeira natureza do objeto;
- Valcinzento fecha completamente os portões durante a noite;
- há uma ameaça mágica na floresta;
- Noah sentiu uma presença que parece estar ligada a um Corruptor da Natureza;
- a presença foi percebida durante a noite e não durante o dia;
- Noah acredita que derrotar essa ameaça pode permitir que o Coração-Raiz seja devolvido sem colocar a cidade em perigo.
O plano atual é descansar durante o dia e investigar a floresta à noite.
Noah
A sessão trouxe várias revelações importantes sobre ele:
- sua personalidade está um pouco mais segura desde o sacrifício da memória;
- Amarantus e as plantas continuam chamando-o de mestre;
- recuperar o Coração-Raiz permitiria que a influência de Amarantus voltasse a alcançar toda a floresta;
- sua conexão espiritual com o Corruptor provocou uma transformação muito mais intensa que as anteriores;
- várias características animais surgiram simultaneamente;
- o selo mágico escondido em suas costas reagiu violentamente;
- Allya percebeu que existe alguma coisa selada dentro dele;
- Noah ainda não sabe que Allya descobriu isso;
- o toque de Allya ajudou a trazê-lo de volta ao controle;
- a corrupção da floresta o atingiu emocionalmente de forma profunda.
Dandelion e Poppe
Dandelion e Poppe continuam avançando em direção ao castelo.
Poppe permanece usando James como identidade falsa.
Durante a sessão:
- Dandelion fortaleceu sua relação com os guardas;
- conheceu Raíssa Belmonte;
- percebeu que seu nome já circula pela região;
- encontrou uma taverna com palco;
- preparou uma apresentação completa;
- abandonou a abertura planejada quando Lino e Mara pediram uma música;
- transformou o pedido do casal em uma grande festa;
- quase esqueceu completamente das gorjetas;
- recebeu uma proposta para mais quatro noites de apresentações;
- reafirmou sua ambição de se tornar o maior bardo de todos os tempos;
- reencontrou brevemente Screaky, Allya e Noah;
- descobriu uma rede clandestina conhecida por Poppe;
- conheceu uma criatura usada como portal vivo;
- está prestes a entrar nos esgotos próximos ao castelo.
NPCs apresentados ou consolidados
Edran Vilar
Prefeito de Valcinzento. Acessível, prático e acostumado a lidar diretamente com os moradores.
Oren Vale
Capitão dos guardas responsável pelo quartel onde Dandelion e Poppe passaram a noite.
Raíssa Belmonte
Filha do taverneiro próximo ao quartel. Ficou fascinada e curiosa ao conhecer Dandelion.
Breno Belmonte
Pai de Raíssa e proprietário da pequena taverna frequentada pelos guardas.
Tomas Vell
Músico que se apresentava na taverna onde Dandelion posteriormente conseguiu um palco.
Garrick Dorn
Proprietário da taverna do show. Ficou tão satisfeito com o resultado que ofereceu hospedagem e comida para manter Dandelion por mais quatro noites.
Lino e Mara
Casal humilde cujo pedido de música fez Dandelion abandonar sua abertura planejada. A dança dos dois foi o ponto inicial da grande festa.
Marek Senn
Contato da rede clandestina utilizada por Poppe para chegar até a passagem secreta que conduz ao portal.
Mistérios e ganchos
Por que Noah é chamado de “mestre”?
Amarantus utilizou o título e as plantas repetiram a mesma forma de tratamento. Noah ainda não entende o motivo.
O que está selado dentro de Noah?
Allya conseguiu identificar que o símbolo em suas costas funciona como uma contenção. Algo reagiu durante o contato com o Corruptor.
Quem é o Corruptor?
Noah o compreendeu como uma espécie de inversão de um druida, conectado à natureza através de corrupção e morte. Sua identidade e seus objetivos continuam desconhecidos.
Qual é a ligação entre o Corruptor e o Coração-Raiz?
O grupo suspeita que derrotar o Corruptor possa eliminar a necessidade de Valcinzento manter o Coração-Raiz, mas isso ainda não foi confirmado.
Como o Coração-Raiz chegou a Valcinzento?
O monumento existe há gerações e os moradores aparentemente desconhecem a verdadeira natureza da madeira incorporada nele.
O que significa a moeda de Thalindra?
A presença de sua imagem em moeda corrente reforça a importância política ou institucional que ela possui — ou possuía — naquele reino.
Onde o portal levará Dandelion e Poppe?
A criatura promete uma passagem diretamente para os esgotos muito próximos ao castelo.
E, talvez mais preocupante:
Poppe ainda precisa descobrir se consegue atravessar esse plano inteiro sem deixar Dandelion se distrair no caminho.
Boa sorte para ele.
